sábado, 18 de novembro de 2017

CUMPLICIDADES

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AC, Entardecer temperado com aviões
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Às vezes, em deambulação pelo mundo em busca de algo que ajude à compreensão da geometria das coisas - tarefa volúvel, quase inglória, como se fosse possível a abstracção do tempo presente - deparo comigo a observar a arquitectura das aves, das formigas, das abelhas, das plantas... Todas têm um tempo próprio para os rituais que as comandam, todas parecem cingir-se a um calendário que obedece, cegamente, às leis da luz e da água. 
Tu, contudo, teimas em harmonizar todas as minhas estações. Muitas vezes em pensamento, é verdade, mas a tua presença é contínua, como se a compreensão das coisas dependesse da nossa cumplicidade. E, nas tuas idas e vindas, levas sempre algo de nosso, trazes sempre algo para nos completar.
Às vezes, quando sinto necessidade de partilhar o meu deambular, limito-me a esperar pelo regresso das tuas deambulações. Ambos sabemos da complexidade das coisas, ambos sabemos que, para as simplificar, é necessário entendê-las, senti-las, num jogo de sedução que nos une cada vez mais. Com a cumplicidade a colmatar, com naturalidade, as pontas soltas que teimam em nos envolver, ambos conhecemos, por inteiro, as linhas com que teimamos tecer a casa que nos habita.
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sábado, 11 de novembro de 2017

COM QUANTAS VARAS SE TECE UM FEITICEIRO?

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Margarida Cepêda, Ela, o violino e as vagas
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Há um tempo de exaltação, amor primeiro,
há um tempo de decisão, embrião fagueiro,
há um tempo de enfrentar medos, de corpo inteiro,
há um tempo de solitárias preces, patamar cimeiro.
Afinal... com quantas varas se tece um feiticeiro?
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Os caracteres surgem um pouco maiores que o habitual a fim de tentarem acompanhar, ingloriamente, a dimensão da tela. Tão só.
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domingo, 5 de novembro de 2017

TCHUMA

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AC, Gravura rupestre (Barroca do Zêzere, Fundão)
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Tchuma, de pé naquela espécie de promontório, que irrompia cerca de dez braçadas nas águas do rio, olhava em volta. A caça tinha corrido bem aos homens. Alika, juntamente com outras mulheres do grupo, ocupava-se a raspar a gordura das peles com um biface. Lok e Kanut, a um canto, partiam pedras do rio, com precisão, para obterem algumas lascas afiadas. Estavam sempre a precisar delas. A garotada, mais abaixo, iniciava-se na pesca com uma espécie de arpão, uma simples vara com uma pedra afiada atada na ponta, soltando gritos de júbilo quando conseguiam apanhar um peixe. Os dias sorriam-lhes, sem dúvida. Naquele lugar havia muita caça, muita pesca e muitos frutos, poderiam ficar por ali algum tempo. 
Tchuma fixou-se nas águas, naquele abismo que, em simultâneo, atraía e atemorizava. Gostava de estar ali, mas sabia que, com o passar dos dias, a caça iria para longe. Embalado no som da água a correr, pôs-se de cócoras e, puxando do buril, começou a picotar a rocha, dando forma à gravura dum cavalo. Talvez, quem sabe, fosse uma forma de, quando partissem, ali continuassem a viver.
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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

APRENDIZ

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AC, Bosque de coníferas (Serra da Estrela)
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Os passos eram lentos, cautelosos, próprios de quem está fora do seu ambiente, como se, a qualquer momento, algo pudesse acontecer que perturbasse o momento. Havia vida, muita vida, pressentia, mas quase em contenção, como se aguardasse o próximo gesto do invasor para determinar as suas intenções. Parecia que o desmoronar do equilíbrio dependia dum gesto menos conseguido, dum respirar fora de contexto, do desabar duma intenção ainda por concretizar. 
Achou melhor parar. Os minutos foram passando e, naquilo que julgava silêncio, algo se começou a insinuar: pequenos sons, leves como o cair duma folha, como o voo dum qualquer insecto, como a delicada carícia da brisa... Começou a sentir, lentamente, que fazia parte do que o rodeava, que era apenas mais um ser a palpitar. 
Os músculos começaram a relaxar. O som da queda das folhas tornou-se mais nítido; não muito longe o movimento da água entoava a sua eterna sinfonia; um ou outro pássaro começava a dar sinal de vida. Respirou fundo, em acto libertador, enquanto se fixava na arquitectura das folhas, delicado tecido de discretos seres sempre presentes, sempre a nosso lado, que teimamos em manipular, não lhes dando carta de alforria.
Sentou-se numa pedra. Tirou a máquina fotográfica da mochila e, já totalmente integrado, começou a fotografar, como se quisesse semear, dentro de si, as sensações que as árvores lhe transmitiam.
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AC, Bosque de faias (Serra da Estrela)
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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

OS CASTANHEIROS DO POÇO DO INFERNO

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AC, Trilho na Serra da Estrela (zona do Poço do Inferno)
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A solicitação chegara, inesperada, via correio electrónico. A resposta, perante tão apelativo desafio, só podia ser uma.
O ponto de encontro ficara marcado para Manteigas, uma espécie de presépio em pleno vale glaciar do Zêzere, onde se acertaram os últimos pormenores.
Chegados à zona do Poço do Inferno, não muito longe da vila, o primeiro impacto, já adoçado no percurso de acesso, foi de plena aceitação. A vegetação envolvia-nos de tal forma que, por momentos, nem sabia bem como chegara ali, a um vislumbre de portal que nos transportava, quase sem darmos conta, à percepção e à transcendência. Talvez fosse a determinação em me levantar cedo, talvez fosse o filtro, cada vez mais apurado, de investir nas coisas aparentemente simples, em que a arquitectura verde, de tão harmoniosa, convida, de forma irrecusável, à libertação das amarras da alma. Fosse como fosse, mal ali cheguei senti que valia a pena, que estava em casa, na casa que deveria ser de todos nós. Um privilégio esverdeado, mesclado, aqui e ali, por belas e delicadas pinceladas, obedecendo ao sortilégio das primeiras tonalidades outonais.
O percurso, adornado, maioritariamente, por castanheiros, com uma ou outra faia ou um pinheiro a intrometer-se, parecia preparado para os deuses. O chão, atapetado quanto baste pelas folhas precursoras do mergulho em espiral, abafava os passos dos caminhantes, imprimindo-lhes um som peculiar, mas aconchegante. Os sorrisos de satisfação instalavam-se naturalmente, como se cirandar por esta parte da Estrela fosse receita miraculosa.
O tempo passava, sem ninguém dar conta, com os sentidos cada vez mais ligados à arquitectura de troncos e folhas, musicados por um ou outro chilreio, só distraídos com o piscar de olho das castanhas que, numa quase ousadia, espreitavam dos ouriços que enfeitavam o caminho. Ante a promessa duma boa jeropiga no final do percurso, algumas foram mesmo parar à mochila.
Mais abaixo, já perto da zona onde a ribeira de Leandres e o rio Zêzere se abraçam, surge a primeira pausa. Das mochilas saltam acepipes, soltam-se as palavras, a apreciação da jeropiga é consensual: envolvente, matreira, convidativa a mais um trago. Vindos das proximidades, dois cachorros Serra da Estrela, de rabito a dar a dar, chegam-se por perto, despertando carícias e sorrisos. Mesmo ao lado, em discreta sinfonia ancestral, a água da ribeira faz-se ouvir. Ainda faltava fazer a Rota das Faias, a caminho do Covão da Ponte, mas o dia já estava ganho.
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ESTAVA MADURA NO RAMO, MAS NÃO A COLHI

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AC, Romãzeira
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Sempre que posso desvio-me dos caminhos principais, apesar de, aparentemente, eles terem largueza, bom piso, luzes, sinais, câmaras, holofotes... Curiosamente é por eles que toda a gente quer passar, sempre cheia de pressa, condicionada por um qualquer chip, como se a vida se resumisse ao momento efémero da sua passagem. E como eles correm!
Eu, mortal em contramão, cada vez tenho menos pressa, confesso. Aprendi que a maturação, para se exprimir da melhor forma, requer a pacificação do tempo, ou seja, muito suor interior. 
Um destes dias, porque sim, passei junto duma velha quinta, quase abandonada. Os muros, sinal de sabedoria do construtor, mantêm uma postura digna, sem quebras, adornados com heras alimentadas pelo tempo. Espreitei. Uma romãzeira, apesar do desprezo a que parecia votada, continuava a pintalgar aquela espécie de refúgio onde, quero crer, outrora alguém descia as escadas, tranquilamente, de cesta na mão, para levar para casa aquela flor outonal.
Mudam-se os tempos e as vestes, mas a espiral das vontades parece a mesma. A minha, num primeiro impulso, foi subir o muro e colher uma romã, mas algo me prendeu. É que, cada vez o sinto mais, não é a romã que temos na mão que importa. O que faz sorrir, interiormente, é a que levamos dentro de nós.
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sábado, 30 de setembro de 2017

O MURO

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AC, Filtro outonal
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Há um sol, ao de leve, que me aquece de mansinho, como se tentasse perpetuar aquilo que é breve, alquimia de poeta que tudo quer abraçar.
Rompe a névoa, aqui e ali, pintalgando conceitos efémeros, como se tudo fosse nada. Vão-se as andorinhas, rendidas ao capricho solar, e eu para aqui fico, tentando amarrar, na tela, o intangível, como se a simplicidade do ciclo da vida fosse quadro para emoldurar.
Sento-me na pedra de granito, altaneira, filtrando a luz que se insinua nas folhas, dando-lhes uma vida única, própria de cada instante. Sinto que, para lá da sinfonia de cores, estamos mal preparados para o que se segue, queríamos a vida sempre à mercê. É por isso que olhamos com desconfiança a velhice, quase não reparando na sabedoria acumulada. É por isso que continuamos a não saber enfrentar a morte, olhos nos olhos, quando é a única certeza que transportamos a tiracolo.
Há um sol, ao de leve, que me tenta iludir na certeza, desafiando-me para a descoberta de outras certezas. E eu, eterno crente na dignidade, como se não houvesse outro rumo, continuo a investir contra o muro, partindo pedra após pedra. Talvez, quem sabe, um dia consigamos saber aquilo que andamos cá a fazer.
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domingo, 24 de setembro de 2017

RECEITA PARA LÁ DAS RECEITAS

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AC, Sebe em busca de livro de reclamações
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Não é todos os dias, mas quase, que isto de ser aprendiz tem que se lhe diga. Quando me levanto, tal o apego à vida, há sempre algo que me condiciona a mente: uma vontade de conjugar bem, a cada dia que passa, os gestos que marcam a minha presença no mundo. Não é nada de dramático, como se tudo dependesse de mim, mas algo devidamente filtrado no tempo, com o toque da simplicidade, do dever feito, como se tivesse bem presente que, dos pequenos gestos, podem germinar pequenos grandes botões de rosa.
Às vezes, reconheço, deparo-me com pessoas que só parecem reagir ao fogo e ao aço. Com o tempo, contudo, aprendi formas de as enfrentar. Sempre olhos nos olhos, nunca em tom desafiante, mas em modo invocador de afectos: dos que se exibem, na luz, mesmo que considerados insuficientes, dos que existem, na penumbra, por trás das muitas cortinas que nos talham o destino. Em modo soft, pois é claro, a não ser que a besta tresande de tal forma que, logo à partida - louvo a honestidade de carácter - fiquemos logo avisados de que, por aquelas bandas, não há terreno por arar. Por demais inculto. 
Vivo no campo, por opção, onde cada tarefa, para ser executada de forma descontraída, sem o peso dum qualquer encargo, implica comunhão com tudo o que nos rodeia. Só assim se compreende que, para aparar parte das sebes que rodeiam a casa, tenha demorado duas manhãs, sem estar a pensar no que ainda falta. E, podem crer, o gozo que isto me dá, sempre acompanhado pelo chilreio da passarada!
O sentido da vida? Cada um tem a sua receita, mas para ela ter validade tem que ser testada no caminho percorrido, sempre numa perspectiva de futuro. Fora dos roteiros oficiais, é claro.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O MEU POETA

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Imagem retirada do Google
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Conheço um poeta que é igual a todas as outras pessoas, afinal um poeta é uma pessoa como todas as outras. Contudo, para lá dos gestos triviais, como que refugiando-se na normalidade, há um não sei quê que o trai, talvez o olhar, como se estivesse, continuamente, à espera do seu momento de libertação. E, quando descortina algo que o cativa, que o agarra, é vê-lo partir, sem sair do mesmo lugar, como se, de repente, a realidade ganhasse novos contornos, novas geometrias, como se vislumbrasse um portal para um novo patamar. Subitamente, como se despertasse, dá-se conta de que está perante olhares que o questionam, procurando entender aquela aparente fuga. Nessas alturas apenas sorri, enquanto se despede como se levasse, a tiracolo, algo de precioso.
Conheço um poeta que parece igual a todas as outras pessoas, mas não é. Enquanto os outros tudo fazem para adoçar a realidade, adquirindo, ele tudo faz para lhe dar novos contornos, voando.
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domingo, 10 de setembro de 2017

A PEDRA

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Havia uma pedra, há sempre. Mas aquela, de tão diminuta, prendia a atenção, como se a sua pequenez tivesse algo para transmitir.
Olhei-a. Era cinzenta, baça, sem brilho, aparentemente sem nada de especial. Mas, por mais que a tentasse deixar para trás, ela parecia olhar-me, desafiando a minha percepção das coisas.
Prossegui o caminho. Quando ultrapassei a primeira curva, a pequena pedra, acomodada na mochila, parecia cantarolar. Eu apenas sorria.
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