quarta-feira, 26 de julho de 2017

ABRAÇAR, NATURALMENTE, QUANDO A ALMA SE SENTE QUENTE

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Sempre soubeste das minhas idas e vindas, da minha necessidade de questionar, de respirar, em busca de encontrar sentido em cada partícula, em cada átomo. Isso faz parte de nós, sempre fez, foi assim que construímos a nossa cumplicidade. Tu, mais exposta ao sol, nunca tiveste necessidade disso, mas sempre respeitaste, por mais efémeros, os meus mergulhos interiores.
Gosto de partidas, mas adoro as chegadas. No regresso, quase sempre à hora certa, o meu sorriso sempre deparou com o teu sorriso, os meus segredos sempre foram teus. Ontem, apesar de sorrires, havia nuvens no teu semblante. O canteiro das roseiras parecia abandonado, entregue às ervas, e na parte mais resguardada do jardim, por trás da casa, onde sempre gostámos de sentir a magia do final do dia, desta vez não havia mesas nem cadeiras.
Olhei-te nos olhos e percebi. Algo te agredira, profundamente, algo te indignara. Ainda pensei dizer-te para não te preocupares, em como era vão o eco das coisas medíocres, efémeras, mas a hora não era de palavras. Abracei, profundamente, a tua fragilidade, sabendo muito bem o quanto eras forte. Estavas apenas a precisar dum abraço.
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domingo, 23 de julho de 2017

A VOZ DOS (INCONTÁVEIS) SILÊNCIOS

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Muito da essência humana, por mais que brade a diversidade de pretensos pastores, tem a ver com sobrevivência. Ciclicamente vão aparecendo algumas vozes, inconformadas, pugnando por um patamar mais elevado, mas depressa os detentores do poder, apelando à zona de conforto das massas, reagem. Nada mais eloquente, para ilustrarmos essa ideia, que socorrer-nos das palavras do príncipe de Salina, personagem do romance "O Leopardo", de Tomasi di Lampedusa: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.
Na nossa vida somos confrontados, amiudadas vezes, com situações de perfeita mediocridade, em que as instituições exigem obediência cega, por mais míope que seja a sua visão. Bem podem bradar os bem intencionados que uma sociedade só poderá evoluir se os seus membros forem pro-activos, com consciência crítica. Na prática, principalmente nos países mais solarengos, isso só nos manuais. E, desde que haja pão e circo, mais um favorzito aqui e ali, as pessoas facilmente vendem a alma ao diabo. E é vê-lo sorrir, o descarado!
O ser humano é o que é, temperado com demasiada dose de egoísmo, mas com uma parte, por mais recôndita, com necessidade de luz. Há quem diga que certos silêncios são sabedoria, que é preciso saber passar entre os pingos da chuva, mas cá para mim, eterno desassossegado, eles apenas moldam a alma no rastejar da cobardia.
Antes que seja tarde, vai sendo tempo de darmos voz aos nossos silêncios.
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sábado, 15 de julho de 2017

ETERNA FALHA

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Fotografia de AC
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Há algo que impele, para lá do torpor, 
há algo que resiste, apesar da dor, 
há esperança que se insinua, para lá da cor, 
há recobro que se aloja, seja lá como for. 
Depois... dar sentido à palavra amor.
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sábado, 8 de julho de 2017

JULHO

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Quando Julho atingia a maioridade, num ritual de espera pelos melhores dias, temperado no suor de muitos meses, as colheitas começavam a jorrar alegria pelas ruas, num festim de abundância. 
Nesses dias, aproveitando a tolerância, costumavas vir sentar-te, à tardinha, no banco sobranceiro à grande árvore, onde a garotada, deliciosamente ingénua, mostrava habilidades e travessuras, num jeito muito próprio de abraçar a vida. Tranquila, de livro na mão, sorrias do entusiasmo dos outros, mas nunca te atrevias a sair do teu banco.
Um dia, talvez quando o odor das flores de tília mais se insinuava, pedi-te que me falasses do livro. Sorriste – sempre te vi a sorrir - e mostraste-me a capa: As Aventuras de Tom Sawyer. Depois, num gesto delicado, espontâneo, perguntaste-me se o queria ler.
Esse Verão nunca mais foi o mesmo. Eu comecei a ler o livro, tu começaste a acompanhar-me, quase à socapa, na descoberta dos ninhos, do nome dos insectos, a diferenciar o canto das aves, a saber o nome dos peixes que habitavam a ribeira.
De vez em quando ouvia-se o ecoar do teu nome, e tu lá ias. Quase sem nos darmos conta, tu davas corpo, a cada dia que passava, às palavras do livro, enquanto eu, como se me redescobrisse, aprendia a pintar o mundo com novas tonalidades.
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sábado, 1 de julho de 2017

MÁ SORTE

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Sónia Reis, Amarras
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Na pequena aldeia já todos se tinham recolhido, fazendo contas à vida. Lá fora pareciam felizes, contentes com a sua existência - andavam, numa azáfama, a preparar a festa do padroeiro - mas recolhidos, enquanto cogitavam, um nome era transversal a todas as conversas, quase de forma inconsciente: o de João Afoito, executor da agenda do barão. Todos sabiam do seu poder, todos sentiam na pele o preço de estar de bem com ele. Servil, até à medula, para quem lhe dava ordens, transfigurava-se na sua aplicação, como se a salvação da alma dependesse da sua obediência. E, aí, era cínico, frio, alicerçado numa fidelidade canina.
João Afoito, contudo, não sentia paz. E, de quando em vez, talvez para apaziguar a consciência, convidava um ou outro peão mais influente para uma petiscada. Copo daqui, copo dali, as palavras começavam a brotar, embora comedidas. O Afoito tentava debitar insinuações de humanidade, esboçando recompensas a quem o entendesse, os peões sentiam-se protegidos por merecerem a sua atenção. A sombra, contudo, era fiel testemunha do subtil amordaçar.
Um dia, no largo da ribeira, onde todos se encontravam ao fim da tarde para dois inofensivos dedos de conversa, o Aranha, que já tinha bebido uns copos na adega do compadre, começou a questionar as amarras do barão e do capataz, o João Afoito. Silêncio. Todos ouviam, mas o olhar, não fosse interpretado como de concordância, afastava-se noutra direcção. E, quase em murmúrio, naquele dia regressaram mais cedo a casa.
O João Afoito, por beneplácito de alguma alma caridosa, depressa soube o que se passou. Ouviu, mas dele nada transpareceu.
A aldeia voltou à sua azáfama, benzida no ouvir e calar, em prol do pão de cada dia. E nem mesmo quando o Aranha, personagem bafejada pela má fortuna, apareceu afogado num poço, se atreveram a endireitar as costas. Para rematar o caso, ficaram, qual etéreo epitáfio, as palavras da Ti Ana do moleiro:
- Coitado, nunca teve sorte nenhuma.
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domingo, 25 de junho de 2017

ESCADAS DE MEMÓRIAS, MEMÓRIAS EM ESCADA

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Hélio Pereira, Piódão
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As coisas não são, nem nunca serão, o que eram. Cada momento, para fazer sentido, carece de constante alimento, eterna reformulação do sentir e, por necessária cumplicidade, de se fazer sentir. Uma conquista no caminho trilhado, passada a euforia, não é mais do que isso, mera referência duma ideia que, mal a vaidade assoma, se esvai por entre os dedos. E tudo parece ficar, novamente, sem sentido.
Ontem, enquanto subia os degraus de xisto, temperados com o doce aroma das flores, lembrei-me de ti, avó, de quando falavas, sorridente, dos amenos fins de tarde de verão. Descias as escadas, confiante, de cântaro na mão, em direcção ao fontanário, onde sabias que te esperavam os olhos do teu amado. Fazias de conta que não o vias, mas os teus gestos, por mais que os tentasses domar, denunciavam-te. E, sem te dares conta, era apenas isso que ele queria, um pequeno sinal para dar corda aos seus sonhos.
Gosto da escadaria, sempre gostei. Mas, avó, sem a tua memória, adornada de doces e delicados sorrisos, ela jamais seria o que é.
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domingo, 18 de junho de 2017

ROSMANINHO

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Fotografia de AC
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Surgiste, um dia, vinda do nada, como se as coisas acontecessem por si. Olho vivo, polvilhado com pó de estrelas, tentavas ocultar, em vão, anseios e sonhos, como se viver fosse coisa proibida. 
Descobriste, a pouco e pouco, que não. Quando, nas manhãs aconchegantes de Junho, começaste a respirar o aroma do rosmaninho, sentiste, finalmente, que as amarras estavam dentro de ti.
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sábado, 17 de junho de 2017

CEREJAS

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Fotografia de AC
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São elegantes, aveludadas, saborosas, com o tamanho certo para se deglutirem, epicuramente, sem vontade de parar. São viciantes, no seu sabor único, despoletando emoções difíceis de definir, como se cada uma transportasse, dentro de si, a sensualidade dum corpo à medida, envolvente, filtrado em mil promessas.
Durante um mês, mês e meio, a cereja foi rainha, congregando todo o género de atenções e mimos, qual oásis ao estender da mão.
Já se despedem, contudo, as cerejas, abrindo portas aos exageros do estio. Como qualquer ser único, gostam dum tempo só para si.
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quinta-feira, 15 de junho de 2017

NA CASA DA MÚSICA

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Fotografia de AC
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O dia avançava, qual farol condicionador de todos os gestos, enquanto me dirigia para o meteorito. Ousei entrar. 
As linhas seduziam, como se desvendassem o segredo da amálgama entre o linear e o complexo, parecendo esbater distâncias interiores, por mais irresolúveis. Deixei-me ir, por uma vez gostei que me conduzissem. E valeu a pena.
Quando os acordes começaram a dar sinal de vida, prometendo novas telas, acomodei-me no assento. Depois, deixando na penumbra toda a transpiração do executante, como se tudo fosse natural, cada instrumento deu o melhor de si, como se os instrumentistas fossem mero adereço. E as telas começaram a insinuar-se, renovando-se a cada instante, como se tudo fosse uma história ao nosso alcance, escrita com as vivências e os anseios de cada um.
No final, o aplauso merecido para os músicos residentes da Casa da Música, no Porto, verdadeiros efabuladores da essência humana. Isto é cultura.
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sexta-feira, 9 de junho de 2017

CRÓNICA QUASE CANINA

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Fotografia de AC em modo desfocado
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Fim de tarde, quase lusco-fusco. Os verdes competiam entre si, qual deles o mais maduro, embalados pelo canto da passarada. De repente, por entre adornos de folhas... a cor. O que era aquilo que, de repente, prendia as atenções? Um pêssego? Um damasco?
O Lucky, que rondava por ali, virou costas à curiosidade, sem qualquer latido, máximo sinal de desprezo. Por ali não havia ossos, apenas um desajeitado de câmara na mão.
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