domingo, 25 de junho de 2017

ESCADAS DE MEMÓRIAS, MEMÓRIAS EM ESCADA

.
Hélio Pereira, Piódão
.
.
As coisas não são, nem nunca serão, o que eram. Cada momento, para fazer sentido, carece de constante alimento, eterna reformulação do sentir e, por necessária cumplicidade, de se fazer sentir. Uma conquista no caminho trilhado, passada a euforia, não é mais do que isso, mera referência duma ideia que, mal a vaidade assoma, se esvai por entre os dedos. E tudo parece ficar, novamente, sem sentido.
Ontem, enquanto subia os degraus de xisto, temperados com o doce aroma das flores, lembrei-me de ti, avó, de quando falavas, sorridente, dos amenos fins de tarde de verão. Descias as escadas, confiante, de cântaro na mão, em direcção ao fontanário, onde sabias que te esperavam os olhos do teu amado. Fazias de conta que não o vias, mas os teus gestos, por mais que os tentasses domar, denunciavam-te. E, sem te dares conta, era apenas isso que ele queria, um pequeno sinal para dar corda aos seus sonhos.
Gosto da escadaria, sempre gostei. Mas, avó, sem a tua memória, adornada de doces e delicados sorrisos, ela jamais seria o que é.
.
.

domingo, 18 de junho de 2017

ROSMANINHO

.
Fotografia de AC
.
.
Surgiste, um dia, vinda do nada, como se as coisas acontecessem por si só. Olho vivo, polvilhado com pó de estrelas, tentavas ocultar, em vão, anseios e sonhos, como se viver fosse coisa proibida. 
Descobriste, a pouco e pouco, que não. E quando, nas manhãs aconchegantes de Junho, começaste a respirar o aroma do rosmaninho, sentiste, finalmente, que as amarras estavam dentro de ti.
.
.

sábado, 17 de junho de 2017

CEREJAS

.
Fotografia de AC
.
São elegantes, aveludadas, saborosas, com o tamanho certo para se deglutirem, epicuramente, sem vontade de parar. São viciantes, no seu sabor único, despoletando emoções difíceis de definir, como se cada uma transportasse, dentro de si, a sensualidade dum corpo à medida, envolvente, filtrado em mil promessas.
Durante um mês, mês e meio, a cereja foi rainha, congregando todo o género de atenções e mimos, qual oásis ao estender da mão.
Já se despedem, contudo, as cerejas, abrindo portas aos exageros do estio. Como qualquer ser único, gostam dum tempo só para si.
.
.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

NA CASA DA MÚSICA

.
Fotografia de AC
.
.
O dia avançava, qual farol condicionador de todos os gestos, enquanto me dirigia para o meteorito. Ousei entrar. 
As linhas seduziam, como se desvendassem o segredo da amálgama entre o linear e o complexo, parecendo esbater distâncias interiores, por mais irresolúveis. Deixei-me ir, por uma vez gostei que me conduzissem. E valeu a pena.
Quando os acordes começaram a dar sinal de vida, prometendo novas telas, acomodei-me no assento. Depois, deixando na penumbra toda a transpiração do executante, como se tudo fosse natural, cada instrumento deu o melhor de si, como se os instrumentistas fossem mero adereço. E as telas começaram a insinuar-se, renovando-se a cada instante, como se tudo fosse uma história ao nosso alcance, escrita com as vivências e os anseios de cada um.
No final, o aplauso merecido para os músicos residentes da Casa da Música, no Porto, verdadeiros efabuladores da essência humana. Isto é cultura.
.
.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

CRÓNICA QUASE CANINA

.
Fotografia de AC em modo desfocado
.
.
Fim de tarde, quase lusco-fusco. Os verdes competiam entre si, qual deles o mais maduro, embalados pelo canto da passarada. De repente, por entre adornos de folhas... a cor. O que era aquilo que, de repente, prendia as atenções? Um pêssego? Um damasco?
O Lucky, que rondava por ali, virou costas à curiosidade, sem qualquer latido, máximo sinal de desprezo. Por ali não havia ossos, apenas um desajeitado de câmara na mão.
.
.

sábado, 3 de junho de 2017

QUASE COMUNHÃO, QUASE TRANSGRESSÃO

.
AC, Apanhado
.
.
Manhã de domingo. O dia insinuava-se prazenteiro, convidativo para mergulhar, mais uma vez, em plena natureza, comunhão que se pretende habitual. 
Após descontraído pequeno-almoço, com o olhar a navegar para lá da vidraça, conjecturando sobre os múltiplos verdes, um último olhar para a mochila, preparada de véspera: calçado adequado,  boné, máquina fotográfica, reforço alimentar. Tudo parecia conforme.
Em plena serra, movido pela busca de novos percursos - recompensado, aqui e ali, com novos ângulos de perspectiva - os sentidos prendem-se, de repente, num leve rumor, que se insinua, em harmonia com o silêncio, num cantar muito próprio, pleno de vida, como se cada partícula de som, por mais ínfima, parecesse transportar, consigo, uma tarefa específica, como se cada átomo fosse determinante na composição do puzzle: era uma nascente que ensaiava, livremente, os primeiros passos na encosta.
Descoberta a tela, o apelo ao ficheiro interior surge, de imediato, despoletando um "guardar como" em constante alerta. Depois, sem pressas, as mãos abraçam a água, tentando perpetuar, num acto espontâneo, natural, o afago da frescura líquida, como se de benfazeja auscultação se tratasse.
A água prossegue, contornando obstáculos, respeitando, de forma natural, a lei da gravidade. Também eu, ser que se compraz em cultivar a dúvida, prossigo encosta abaixo, de bem com a vida. Mas, ainda assim, dessincronizado com algumas leis que regem os homens.
.
.

sábado, 27 de maio de 2017

CANÇÃO DE DESPERTAR

.
Hélio Pereira, Fraga da Pena (Serra do Açor)

.
.
Os aromas de Maio, polinizadores, desassossegavam a alma, despertando sensações enfeitiçadas pelo mais puro instinto de vida. Surgiam canções, poemas, gestos a esboçar toques na pele, como se a vida tivesse que ser agarrada ali, no momento, como se nada mais importasse.
À tardinha, quando os aromas mais se insinuavam, mergulhava nas águas, ainda frias, e reformulava a tela, ainda por concretizar, invocando as deusas do riacho. Depois, mais apaziguado, escrevia um poema, tentando colorir aquilo que me escapava, não por entre os dedos, mas pelo desejo da pele tocada.
Assim eram os dias, no longínquo esboço de paraíso, em que tentava desenhar, no mais puro de mim, o rosto da desejável partilha.
.
.

sábado, 20 de maio de 2017

A CARCÓDIA

.
Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
.
.
Os alvoreceres ainda eram tenros, com as cores pouco definidas, mas já nessa altura o olhar se perdia no longe, ainda que a espaços.
Nas tardes de estio, quando o tempo sorria para todas as vontades, pegava no canivete do avô e, toscamente, esculpia um casco de barco na carcódia que subtraía dum qualquer pinheiro. Depois, com cuidado, afiava um pauzinho, perfurava uma folha de castanheiro e espetava-o no centro da minúscula nave. Faltava a mensagem, escrita numa folha do caderno da escola. Guardado o lápis, dobrava o papel e acomodava-o no barco, qual sonho a adornar o dia, e libertava-o, na corrente, como se fosse o anúncio do seu passaporte para o mundo.
Mais tarde, quando os pais o levaram, de mala a tiracolo, para o deixar num colégio, "para se fazer homem", o último olhar foi para o fio de água. Talvez, um dia, as malas da sua vida abarcassem os sonhos que enviara, em plena nudez, nos pequenos pedaços de carcódia.
.
.
Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
.
.
.

sábado, 13 de maio de 2017

ELOGIO DAS COISAS SIMPLES

.
AC, Duplo abrigo (da minha lenha e das andorinhas)
.
.
Não sei com quem aprendeste, mas escolhias sempre as manhãs para te mostrares, em constante movimento, cuidando das coisas que embelezavam o teu dia. 
Recolhias-te, descansavas, cuidavas das pontas soltas. Regressavas à lida a meio da tarde, infatigável, e só abrandavas quando o rosmaninho e o alecrim destilavam o melhor que tinham, como que a despedir-se do sol e das cotovias. Descansavas, então, na varanda florida, enfeitada de cravos e manjericos, respirando os aromas modelados pela brisa morna com que trauteavas, sorridente, os simples acordes da vida.
.
.

sábado, 6 de maio de 2017

PRINCESAS, PEDRAS, PÁSSAROS E LENDAS, O MARAVILHOSO PARA LÁ DAS TENDAS

.
AC, Gardunha
.
.
Em tempos que já lá vão, havia uma princesa moura, muito bonita - contavas tu, enquanto me aninhava, encantado, no calor do teu colo - que costumava passar por ali, nos fins de tarde, lamentando a ausência do alaúde e do bendir. Então, perante tão sentido carpir, toda a passarada da Gardunha se reuniu, em assembleia, para debater sobre a melhor forma de apaziguar o lamento da princesa. Decidiram cantar por turnos e, não fosse alguém esquecer o combinado, confiaram tudo às Pedras da Memória.
Melros-azuis e rouxinóis, cotovias e piscos, ferreirinhas e pintassilgos, e outros que tais, que esvoaçavam por cima das pedras, nunca mais se esqueceram do protocolo, embalando a princesa moura em naturais cantares, fazendo-a sentir como se aquela fosse a sua verdadeira casa. 
Ainda hoje, quando alguém passa por ali, e se estiver atento, as pedras parecem querer dizer-lhe algo. A passarada por lá continua, cumprindo a decisão da ancestral assembleia, apenas falta quem a ouça e sinta como a princesa moura.
.
.